Friday, 28 September 2007

The Prestige (2006)

de Christopher Nolan



Sempre me admirei com o trabalho de Christopher Nolan. Um trabalho consistente até agora e capaz de destruir as convenções do cinema norte-americano só podia vir de um estudante britânico com vontade de experimentar com a relação entre o público e a narrativa. Os seus filmes não são particularmente complexos, muito pelo contrário, mas ele sabe assegurar um nível mínimo de inteligência na estética da narrativa como se a própria obra dependesse (e depende) desse factor. E diverte-se, diverte-se mais do muitos outros realizadores.
Mas Nolan pode falhar. Todos os elogios que lhe deram desde Memento nunca poderiam conter a noção realizador único e futuro mestre do cinema, apenas alguém que prometia uma nova experiência ao espectador e conseguia exactamente isso. Criou uma adaptação de banda-desenhada com os pés mais acentes na terra (principal vantagem de Batman Begins) e fez um remake dentro da verdadeira etimologia da palavra (Insomnia adaptou à boa maneira de John Sturges o original norueguês em vez de o copiar passo-a-passo ou o ofender) mas nada dessas virtudes é capaz de pôr Nolan no panteão, muito menos no pedestal dos realizadores mais importantes do cinema norte-americano moderno. Atenção, ele é um óptimo realizador, eficaz acima de tudo, mas nada de ultra-original ou profundo que fique para a posteridade na lista dos clássicos intocáveis. Só que sabe bem ver os seus filmes e construir os puzzles, que é isso exactamente o que eles são, peças desconexas que têm que ser completadas pelo espectador para seu próprio prazer.
A diferença entre os seus filmes anteriores e este seu último é que pelo menos antes Nolan tratava tudo com precisão científica, até a suspensão de descrédito que o público é obrigar a ter e nunca enganava ninguém. Portanto que se passou com esta nova história? Primeiro está o livro em que The Prestige se baseou, portanto é necessário ser fiél à história, certo? Muitas vezes não, muita vez um filme não aguenta passos, personagens, tratamentos e resoluções que leva a que o núcleo da obra original tenha que ser simplificado e a partir daí construído passo-a-passo para complementar a estética original que o realizador planeou. Neste caso, dois mágicos rivais continuam uma eterna rotina de vingança entre um e outro que chega ao auge quando um deles cria um truque perfeito que parece contrariar verdadeiras leis da física. Ponto, o ponto-de-partida delineado devia ter servido para os dois irmãos Nolan escreverem o argumento e a partir daí puderem retirar todos os elementos que nunca funcionariam num filme de duas horas. Neste caso, o final. Depois de centena e meia de minutos de especulação e ansiedade pela resposta final, exige-se uma conclusão fiável e dentro do estilo que o filme todo andava a ter, mas o que Nolan nos dá é a resolução mais ridícula que se podia encontrar, uma parafernália de elementos inacreditáveis que não parecem fazer parte deste filme mas de uma obra de Stephen King.
É uma pena ter acabado com um sentimento e raiva, pena porque os dois primeiros actos são belíssimos e muito bem construído. Durante mais de metade do filme temos Christian Bale na prisão a ler o diário de Hugh Jackman a ler o diário de Christian Bale, portanto na boa tradição Nolan a acção salta de um lado ao outro, avança e recua, engana e revela obrigando-nos ao exercício mental de tentar situar todos os eventos naquele espaço de tempo. Ver filmes assim com a nossa mente ocupada dessa forma é extremamente compensatório, ao mesmo tempo que tentamos desmascarar as intenções do realizador sabemos que ele aproveita a distracção para nos surpreender ainda mais. Sim, o público gosta de ser enganado, não que o ofendam ou tomem por estúpido mas que simplesmente o enganem. Nos dois primeiros actos do filme tudo corre assim, sempre bem balançeado, nada de grande virtuosismo cinematográfico nem segundos sentidos - é um filme sobre isto e é isto que se passa. O problema começa na terceira parte quando já ninguém está a ler o diário de ninguém e só falta mesmo atar os nós. Completamente levado pelo seu próprio génio, Nolan pensa que é necessário deixar mais umas pistas de última hora para a resolução final e estica sequência atrás de sequência e repete-se e aos poucos parece que é ele que está atrás da mesa de montagem a pedir por mais em vez de reparar no público atrás de si que troca a impaciência por suspeita e depois por desinteresse. E é quando chegamos a essa fase que Nolan decide apresentar o duelo final com o primeiro mistério a ser despachado e, surpresa, tantas voltas que dá no terceiro acto que já toda a gente descobriu o que era mas nem isso impede que Bale estique a sua explicação por uns bons minutos sem noção nenhuma de pragmatismo cinematográfico, esse pragmatismo que era até então uma das armas mais poderosas da anterior cinematografia de Nolan. E então vem a resolução final, aquilo que estávamos à espera desdo primeiro twist (sim, o filme tem vários) é ridícula e cria um buraco gigantesco na finalidade de várias personagens finais. É como se Nolan nos tentasse surpreender com tanta força que tenha vendido as suas intenções ao diabo e acabado por se enganar a si próprio.

The Prestige é um filme que não consegue atingir a sua verdadeira finalização por causa de Nolan só. Os actores parecem acreditar no que estão a ver, Caine, Bale e Bowie são fortes nas suas interpretações ao contrário de Jackman e Johansson que vagueiam completamente sem rumo como se estivessem já a antever uma faca nas costas que Christopher, esse realizador a quem eu ainda ponho muitas das minhas esperanças, quis dar a todos os que virem o seu filme.

Sunday, 23 September 2007

Clerks II

de Kevin Smith


Não sou o maior fã do Kevin Smith. Não é um bom realizador, os diálogos podem ser bons (e são) mas os argumentos na sua maioria têm uma estrutura péssima e facilmente cai no facilitismo e no "eu e os meus amigos a fazer um filme". Mas tenho o maior dos afectos pela sua primeira obra, Clerks (1994), não só pelo esforço inumano de Smith e Mosier para terminar aquela produção de 23.000 dólares como também admito ter respeito por filmes que são feitos com uma paixão superior só pelo simples facto do seu autor estar a mexer em material e com personagens que ele tão bem conhece. Por isso é que acho que Dogma e Jay and Silent Bob Strikes Back são tiros ao lado e Mallrats e, principalmente, Chasing Amy dois belos filmes que merecem todo o respeito da contra-cultura que representam e não merecem o ignorar da elite cinéfila que pouco quer saber do Askewverse onde todos os filmes de Smith se passam. É verdade que ele tem esse grande problema de parecer estar a divertir-se demais e ter profissionalismo a menos, juntar os seus amigos constantemente é muito giro mas pode sair o tiro pela culatra (a mulher de Smith é um pedaço de respeito, sim senhor, mas actriz é que não parece ser) e evita que ele se desenvolva como realizador, impede que aprenda a técnica deixando que os seus filmes pareçam saídos de um episódio especial de uma série de televisão, a montagem seja prosaica e a sua escolha de músicas para pontuar certas cenas ou desnecessária ou péssima.

Como disse guardo um especial carinho por Clerks. Não é preciso uma pessoa ter trabalhado numa loja de conveniência para se relacionar tanto com as personagens, justo dizer que tive muitas dessas conversas a tentar trabalhar para trabalhos de escola ou quando era suposto estar a estudar mas decidia sentar-me num qualquer sítio com uns quaisquer amigos a discutir mulheres, Star Wars e gente estúpida que tínhamos que encontrar. E esse filme era tudo para mim, ainda sou um daqueles que se ri quando vê o número 37 ou afirma best of both words quando a conversa descai para o hermafroditismo. Daí que sair agradecido desta sequela 12 anos depois fosse para mim tanto improvável como desejável. Tinha que ter um sentido, Dante e Randall tinham que atingir algum objectivo ou servir de ponto de viragem para as suas vidas mas ao mesmo tempo queria mais do mesmo, queria que eles pouco ou nada tivessem mudado nesta década passada e só sofressem de uma exclusão dentro do grupo etário porque toda a gente da época deles já avanço enquanto estes dois continuam resignados no mesmo sítio.
E não podia estar mais certo. Felizmente toda as minhas esperanças foram cumpridas e rapidamente pude juntar Clerks II não só à lista dos melhores filmes de Smith como provavelmente no topo da mesma. Foi difícil no início habituar-me ao mundo de Smith onde os actores tanto podem ser bons como muito maus e os diálogos tendem a repetir a mesma estrutura deixando, outra vez, a progressão dramática completamente estagnada. Mas a partir do momento em que Randall desbarata sobre a conotação racista ou não da expressão porch monkey que não precisei de mais, o espírito do original estava aqui com uma adição superior - Smith progrediu, não muito, continua a ser um fraco realizador, mas era como ver Clerks filmados por alguém com um mínimo de sabedoria técnica e estrutural. Mas de repente chegamos a meio do filme e Smith dá-nos um bombom que nunca pensei que fosse capaz, uma fabulosa sequência musical ao som dos Jacksons 5 arranca-nos da suspensão de descrédito mas liga toda a gente naquele espaço de tempo como se cena acabasse por ter mais importância no futuro e, surpresa, tem!

A história. Dante e Randall já não trabalham na mesma loja de conveniência que foi completamente destruída num incêndio. Em vez disso os dois mudam-se para um restaurante de uma cadeia de fast-food chamada Mooby's onde têm que passar os dias a fazer hambúrgueres e fritar batatas-fritas. Como no anterior a acção toda passa-se num único dia, o último de Dante antes de ir para a Flórida com a sua noiva onde se vai casar, viver e trabalhar num sítio "a sério". O restaurante esse é gerido pela bela Becky (Rosario Dawson) que vê em Dante muito mais por um grande amigo, e ainda há Elias, o novo geek viciado em Transformers e Senhor dos Anéis, bem comportado e bom cristão logo principal alvo para as blasfémias de Randall. E, claro, Jay e Silent Bob que sem loja de conveniência para poderem estar encostados à parede o dia inteiro a vender droga e não fazer nada mudam-se para o restaurante para continuar o mesmo de sempre.
Pouco ou nada mudou. Randall continua as mal-tratar os seus clientes e Dante continua dividido entre duas mulheres e a reclamar que está farto daquela vida de adolescente, que tem que voltar à sociedade. Mas mais importante que isso é a noção que Smith começa a estar desajustado com os seus sucessores no mundo geek. Já não se fala de trilogias do Lucas mas sim do Peter Jackson, já não se tem a liberdade adolescente dos belos tempos da América grunge mas agora são todos protegidos deste mundo devasso e ímpio. Smith trata os seus com respeito, certo que vomita as suas teorias e opiniões com a mesma raiva de sempre mas também aceita até certo ponto os novos tempos e tendências. A escolha de músicas prova que o próprio realizador/argumentista pouco sabe do que se passa no mundo agora, de Smashing Pumpkins a Soul Asylum só parece que aquele que antes era a voz de uma série de misfits americanos parou naquele tempo da sua contra-cultura. É triste mas só torna o filme ainda mais interessante. Se o primeiro era sobre Smith a trabalhar na loja (a mesma onde o filme foi filmado) e a falar com os seus amigos sobre tudo e nada, o segundo é sobre Smith admitir que foi ultrapassado pelos tempos.

Certas cenas são belíssimos primores. O já mencionado diálogo sobre racismo, a luta entre fãs da Guerra das Estrelas e fãs do Senhore dos Anéis e a também mencionada sequência musical. Mas aquela que fica mais na memória é perto do final do segundo acto quando Kevin parece mostrar mais coragem que aquela que tinha quando fez o primeiro. Num volte-face incrível o filme dá-nos um espectáculo de bestialismo (desculpem, erotica entre-espécies) quando todas as personagens se juntam num caos emocional avassalador. Ainda melhor é a força da sequência, de repente a tensão dramática é posta em segundo plano para que a mula e o seu dono possam fazer o seu trabalho.

Kevin Smith nunca será um excelente realizador nem um génio que os seus fãs tanto querem proclamar. Nunca será, aliás, mais do que um excelente escritor de diálogos com um grupo de amigos fabuloso e a maior sorte deste mundo. Mas que salta de alguns dos seus filmes é tão grande que não se pode ignorar, apesar de tudo ele gosta do que faz e o que faz é mais que aceitável, é agradável e nalguns casos, neste principalmente, magnífico! Imagino muitas das pessoas que o idolatram a acabar de ver Clerks II e largarem um simples obrigado por voltar a dar-nos uma fotocópia daquilo que sempre pensámos mas nunca tivemos coragem de dizer. Justiça seja-lhe feita, esta sequela começa e termina exactamente como qualquer fã do original sempre quis e isso só se deve ao olho clínico de Smith e pouco mais. Entristece-me saber que não voltarei a ver Randall e Dante de volta, mas por outro lado o final foi mais que conclusivo, está na hora de todos nós seguirmos também com as nossas vidas.

(última achega para o título português: "Nunca tantos fizeram tão pouco". Que escolha é esta? Que total indignação pelo primeiro filme que nem um título cativante foram capazes de dar, quanto mais relembrar que estamos na presença de uma sequela como não só o 2 do título original o diz como os créditos iniciais tão bem o fazem transparecer)

The Last King Of Scotland (2006)

de Kevin Macdonald



Começo a ter uma predilecção pelos dramas/thrillers passados em África que começam a sair do cinema americano. Hotel Rwanda já tinha sido para mim uma surpresa enorme, onde esperava um filme para Don Cheadle ganhar reconhecimento acabei por ver uma história crua como aquelas se devia contar sobre este continente antes de o romantizar como Sydney Pollack. Depois veio The Constant Gardner, de Fonseca Meirelles, que já esperava ser bom e não fiquei desiludido. Todos estes filmes unem-se numa única particularidade, a afirmação do indecente abuso que o continente é submetido por parte dos países desenvolvidos, nada que não fosse já senso-comum mas o pensamento colectivo é uma coisa e a intervenção artística é outra, a segunda mais eficaz e primeiro passo para quem de facto tem poder para mudar as políticas para com África possa começar a acção. Claro que não é assim tão evidente mas o facto de começarmos a ter um ressurgimento de filmes com esta temática parece mostrar uma impaciência para com as poucas medidas tomadas. E sim, é entretenimento mas é alguma coisa.
Tenho a consciência do pouco poder que a intervenção artística tem, um filme tem o poder de nos fazer pensar durante os minutos seguintes antes que voltemos a reagir como se nada passasse. Mas pelo menos imprimiu-se para a posteridade um relato contestatário de uma qualquer injustiça ou erros passados constantemente repetidos, sejam as experiências das farmacêuticas em África, apoio a ditadores cruéis, relatos de tortura por parte de países industrializados e todos outros crimes contra a humanidade cometidos. É importante que o público se sente no cinema com um balde de pipocas e testemunhe, é bem melhor que ser estupidificado por comédias por comédias entorpecidas ou acção parca em inteligência.

The Last King Of Scotland foi um dos títulos proclamados pelo ditador ugandês Idi Amin Dada (Forest Whitaker) nos anos 70. Uma personagem rebelde que tomou conta do país num golpe de estado e aos poucos caía numa espiral de paranóia e violência insensível. A sua imagem eram completamente denegrida pelos media europeus e americanos, chamavam-lhe de canibal e palhaço mas pareciam todos virar aos olhos às atrocidades de Amin. O relato do filme é fictício até certo ponto, a história do jovem médico escocês que se torna conselheiro pessoal de Idi Amin não é verdadeira mas relaciona-se com as relações internacionais entre a Inglaterra e o governo do ditador ugandês da mesma forma que o hotel de Cheadle em Hotel Rwanda simbolizava a mão belga na ex-colónia. Visto do ponto de vista do jovem Nicholas Garrigan (James McAvoy) a relação com o chefe de estado vai-se deturpando, se no início ele confia no governo e mostra-se interessado no progresso do país mais tarde enquanto casos verídicos se vão revelando e as atrocidades chegam aos seus olhos ele tenta fugir e largar o país naquelas mãos sangrentas. É extremamente in your face, sim, mas o objectivo do filme é exactamente esse. Aliás, não é de admirar que o governo e o povo ugandês tenha apoiado tanto esta produção admitindo ser importante que um olho de fora venha analisar o que aconteceu ao pequeno país do centro de África.
Mas o filme consegue ser mais cru e brutal do que seria de esperar. Não se fica pelo choque das intervenções estrangeiras como em Constant Gardner ou pela luta da sobrevivência do filme de Cheadle. Kevin Macdonald quer dar um passo ainda mais chocante, ele que já tinha feito o belíssimo "pseudo-documentário" Touching The Void não abre a mão e atira todo o grafismo brutal para fazer jus à exploração de Idi Amin. O filme é constantemente pontuado por cenas de violência gráfica puríssimas, quer seja a mutilação de uma das personagens ou a tortura final de Nicholas numa sequência nada normal para um filme desta estatura.

Dos actores já se disse quase tudo. Forest Whitaker vence o seu Óscar mais que merecido mas dou os meus parabéns a Macdonald pela fabulosa escolha do casting. Mais conhecido pelo seu olhar triste e melancólico, imagino que Whitaker não fosse a primeira escolha para este projecto já que ele é normalmente conotado com o vilão redimido que prima pelos seus sentimentos (Ghost Dog, Panic Room). Mas aqui os seus olhos conseguem ser mais incisivos que nunca e se a actuação dele de método não fosse já suficiente as características físicas não entram na caricatura mas no medo e instabilidade que Idi Amin provocava em toda a gente.

Depois deste espero ver num futuro próximo Blood Diamond pela mesma temática. Afinal há uma necessidade político-social para este tipo de filmes e enquanto o entretenimento não ultrapassar a importante mensagem está-se num bom caminho para um novo género de filmes de intervenção política global.

Saturday, 22 September 2007

The Fog (1980)

de John Carpenter



Tenho pena de quem não consegue ainda levar a sério John Carpenter e o reduz à série B e falta de carisma (como se fosse possível). Faz-me lembrar François Truffaut que admitia o amor ao cinema como principal característica de um bom filme, a paixão do seu criador à arte que lhe serve de veículo e abstenção dos lugares comuns da cinefilia de modelo de obras que por muita seriedade que possam ter acaba como ver três episódios seguidos das séries do Seth MacFarlane - um é giro e os seguintes exactamente iguais e aborrecidos.
Mesmo os últimos de Carpenter, excluíndo os fabulosos episódios da série Masters Of Horror, foram muito incompreendidos por novas gerações de cinéfilos que falharam completamente as referências contidas. Lá estão Vampiros e Fantasmas de Marte na lista dos melhores westerns dos anos 90 e do melhor que John Ford já fez desde que morreu.

Mas apesar de toda essa indiferença ninguém tira a Carpenter os seus primeiros filmes e o valor que estes tiveram que serviram para ele ter o direito de usar o seu nome nos seus títulos, poucos o merecem mas Carpenter trabalho para isso. Apesar do culto que corre em filmes como Escape From New York, The Thing e Big Trouble In Little China a incisão cinematográfica do realizador não pode ser escondida. A verdade é que todos os seus filmes requerem uma vasta análise da estética para se chegar à verdadeira intenção, assim como em todos os filmes de todos os grandes realizadores intocáveis.

The Fog é um caso interessantíssimo nesse aspecto. Era o seu quarto filme a estrear nos cinemas e está mesmo no centro daquela fase impressionante entre Assault To Precint 13 e They Live naquilo que foram oito filmes (estou propositadamente a excluir dois cuja qualidade não se compara a estes) em doze anos numa caminhada que só equiparável aos tempos áureos de Alfred Hitchcock. Mas acima de tudo era a edificação de Carpenter como verdadeiro artista da mise-en-scene. Pela primeira vez está Carpenter sozinho, sem referências, sem devoção aos seus mestres mas só ele.
Tudo decorre na pequena cidade costeira de Antonio Bay. Um padre descobre um diário com cem anos que fala de uma tal maldição; uma locutora de rádio local vai dando música e ajudando os barcos que se aproximam da baía e ainda trata do seu filho; um homem dá boleia a uma mulher e os dois apaixonam-se, etc. Todos têm o seu papel mas ninguém toma as rédeas para controlar a catástrofe que cai sobre a cidade - no dia do centenário de Antonio Bay um nevoeiro brilhante dirige-se para a cidade e assassina quem se encontra dentro dele, uma série de mortos-vivos provenientes de uma colónia de leprosos do século passado procura vingança de todos os responsáveis pelo encalhar do seu barco.
Nenhuma das personagens toma o papel do herói interveniente mas todas fazem o melhor para sobreviver a maldição, dito isto o filme é pautado por montagens paralelas atrás de montagens paralelas onde cada interveniente tem uma experiência diferente. A locutora, por exemplo, uma magnífica Adrienne Barbeau, luta contra os mortos-vivos sem nunca saber na realidade o que os trouxe e qual a génese do ataque enquanto o padre, a presidente da câmara e mais uma série de peões se escondem na igreja preparados para o ataque final. Os dois caso entre-ajudam-se constantemente com as sequências a cortarem entre si como se Carpenter tivesse um controlo remoto na mão e nos mostrasse aos poucos, e cada um na sua vez, os destinos diferentes de toda a gente. O melhor é que o não termos tempo suficiente para nos relacionar-mos completamente com todos (no entanto todos têm características personalizadas) faz com que as trocas de Carpenter na montagem criem uma atmosfera verdadeiramente aterradora e eficaz. Pioneirismo no seu melhor e haverá maior paixão pela 7a arte que este respeito pelo público e pelas suas personagens?

Friday, 21 September 2007

A Day At The Races

de Sam Wood



Depois do sucesso estrondoso de A Night At The Opera e Duck Soup o filme seguinte dos irmãos Marx é, a meu ver, um gigantesco passo atrás. Nada comparado com o caos e a rapidez dos gags físicos dos anteriores e com um plot que tem tantos eventos que acaba por não seguir para lado nenhum. Não deixa no entanto de ser agradável, algumas sequências são memoráveis e número musical "who's that man" pode pecar por um ligeiro racismo ingénuo mas só lhe dá um encanto datado.
Tudo revira à volta de um hospital de repouso que está prestes a abrir falência mesmo se ao lado está uma pista de cavalos constantemente cheia. Para manter o hospital aberto ainda mais um mês entra uma cinquentenária rica que exige a presença de um certo médico (Groucho) embora ele seja na realidade um veterinário. Na teoria é um típico setting Marxiano mas o plot secundário deixa tudo a perder por nenhum dos irmãos fazer parte dele, o interesse amoroso da directora do hospital começa a criar um cavalo para as corridas e com o dinheiro investir no negócio dela e isto enquanto um grupo de pessoas desejosos de ver a pobre rapariga na bancarrota tentam provar que Groucho está a fingir na sua profissão.
Os próprios irmãos passam a maior parte do tempo sem espírito, Groucho repete gags anteriores e Harpo perde muito da sua imprevisibilidade dos filmes anteriores parecendo por vezes um grupo de fãs a tentar imitá-los e no seu caso, e apenas dois anos antes de A Night At The Opera, acaba por ser quase constragedor.
Não é um mau filme, dentro dos cânones uma má obra dos Marx é sempre das melhores comédias que se podem encontrar, mas depois de sabermos que eles são capazes de desvaires tão insanos como os anteriores acabar por os testemunhar em ponto-morto não sabe tão bem,.

Thursday, 20 September 2007

Tudo Isto É Cinema I

THE APE MAN (1943)
de William Beaudine


Quem viu Ed Wood de Tim Burton apanhou um espectacular relato dos últimos dias de Lugosi quando a sua carreira estava já em putrefacção. Mas antes do histórico húngaro ser ofendido por Abbot e Costello já este era um actor secundário de veículos para Boris Karloff e isso era pautado com graças de protagonista em filmes tão maus que cada vez mais o atiravam para o esquecimento colectivo, ao contrário do seu nemésis Karloff. Infelizmente este Ape Man faz parte desse segundo grupo de filmes e daí talvez não tão infelizmente porque a falta de qualidade de toda a produção quase que consegue ofuscar o Lugosi ridículo nunca ameaçante e numa maquilhagem que só faz parecer que ele tem uma barba de Hamish em vez de o fazer parecer com uma criatura metade-gorila/metade-humano.
A história começa com duas vertentes, a irmã de Lugosi regresa à cidade deste para descobrir que o irmão cientista serviu de cobaia para as suas experiências com um gorila e é agora metade animal selvagem e ao mesmo tempo uma personagem estranha avisa um jornalista do que se passa na casa do cientista louco numa qualquer relação com fantasmas. Lugosi começa a percorrer a cidade à procura de vítimas para extrair o liquido cefaloraquidiano das suas vértrebas e assim poder curar-se e por curar digo deixar de andar curvado como um gorila. Enquanto isso o jornalista lá deixa umas piadas machistas à sua fotógrafa, a polícia tenta descobrir o paradeiro de Lugosi e aquela personagem estranha do início aparece quando lhe apetece e no fim embrulha tudo na resolução mais estúpida que há memória.
E Lugosi que mete pena ao continuar a manter o seu forte sotaque húngaro que tão bem funcionava no Drácula mas aqui serve de cereja no topo deste desastre do terror dos anos 40.
Mas há uma boa forma de ver este filme, numa sessão dupla com outro do género com um grupo de cinéfilos que também têm especial carinho por Lugosi. Aí este Ape Man começa uma grandiosa noite de cinema esquecido.

LADY SNOWBLOOD (1973)
de Toshiya Fujita


As histórias de vingança foram proeminentes na maioria dos filmes de acção asiática mais importantes. Como The 36th Chamber Shaolin dos estúdios dos irmãos Shaw ou mesmo mais recentemente Oldboy do sul-coreano Chan-wook Park trataram de recorrer ao tema do herói sem rumo para além do seu objectivo principal de vingança dura e fria. Lady Snowblood acaba no entanto por ser o mais estilizado destes três e talvez ainda o mais cru.
Nascida numa prisão, Shurayuki-hime é criada e treinada desde de criança com o objectivo de vingar a morte do pai e do irmão mais velho e das constantes violações que a mão foi submetida antes de ser presa e morrer durante o parto. Os quatro capítulos que dividem a história são para cada um dos intervenientes que Yuki tem que assassinar para assim cumprir o seu objectivo de nascença percorrendo o país até, da forma certa, conseguir fazer a justiça da espada. Incrivelmente a sua personagem não aprende nenhuma lição de vida, cada capítulo começa com a calma de Yuki à procura da próxima vítima e termina com um duelo sangrento, daí que o único desenvolvimento seja feito de retrospectivas do seu passado (o treino duro, a história que a sua mão conta antes de morrer) e de uma cena perto do fim em que ela não sabe o que vai acontecer agora que o seu objectivo de vida foi cumprido.
É assustador ver uma história de vingança com uma personagem que não parece tirar nenhuma moral da mesma embora nos digam a meio do filme que Yume ainda tem uma réstia de sentimento em si e admita-se que é suficiente para aceitarmos esta personagem em toda a sua glória.
Magnífico filme de artes marciais com cenas de acção hiperbólicas e sangue a jorrar como se se tratasse de um filme de animação japonesa. Lady Snowblood acaba por isso ser a estrutura para Tarantino fazer o seu díptico de vingança também com uma mulher a ter que assassinar os quatro principais intervenientes de uma catástrofe em que ela esteve directamente envolvida. Há mesmo planos de Kill Bill que foram copiados a papel químico de Lady Snowblood mas a homenagem atinge carácter de devoção quando Tarantino usa no final do primeiro volume a música principal do filme japonês.
A descobrir urgentemente ao lado de The 36th Chamber Shaolin.

Tuesday, 18 September 2007

Fur: An Imaginary Portrait Of Diane Arbus (2006)

de Steven Shainberg


Shainberg não um realizador que toda a gente possa falar. Os seus primeiros filmes são completamente desconhecidos embora tenham a participação de, na altura, grandes promessas e actores já com obra edificada (William H. Macy, Angelina Jolie, Phillip Baker Hall, etc.) e só na sua terceira obra é que começa a rodar o seu nome. Poucos se lembram mas aqueles que tiveram a oportunidade de ver o belíssimo Secretary dificilmente esquecem, mesmo se a temática fosse desequilibrada para alguns não se esquece a Maggie Gyllenhaal, o James Spader, a música do Badalamenti mas, acima de tudo a romantização do fetichismo, nada normal mesmo em filmes independentes.
Obra seguinte e Shainberg falha em fazer passar a palavra do seu filme entre o culto. Esforça-se, mostra o mesmo respeito pelos sexualmente inadaptados, uma personagem similar à Gyllenhaal do Secretary e quase o mesmo estilo de mise-en-scéne adaptado ao falso biopic de época. O que o anterior estava para o sado-masoquismo está este FUR para o voyeurismo e só por isso o filme tem tudo para funcionar perfeitamente.
Só que falha em dar um passo de risco como o anterior o fez embora tudo seja bem pensado, o argumento é consistente fora o desenvolvimento de Diane com as filhas que ora ficamos com a sensação de que ela as está a negligenciar sem remorsos ora a história secundária da filha mais velha esteja muito mal desenvolvida. Os actores esses merecem todo o respeito do mundo, Nicole Kidman dá o corpo ao manifesto em formato Gyllenhaal mais velha mas nem por isso menos apetecível e, claro, Robert Downey Jr. é gigantesco no papel de homem-lobo letrado e fruto do desejo da personagem feminina.
O que falha são os mínimos porque de resto o filme não deixa nunca uma sensação de vazio e até a fotografia (Bob Pope outra vez num trabalho excepcional) e a música estão em primeiro plano.
O biopic falso ainda consegue funcionar por causa do subtítulo no início acima de tudo humilde que informa o espectador que a adaptação não é só livre, é completamente fictícia para assim melhor fazer jus ao que a fotografa Diane Arbus significa para esse mundo doentio e romântico de Shainberg. É mais do que suficiente para levar a obra a sério, mesmo que o efeito da mesma não seja igual ao bojardo do filme anterior.
Ainda assim nota positiva para este novo Shainberg.